FADIGA DA COMPAIXÃO: QUANDO
CUIDAR MACHUCA
Mas afinal o que é fadiga da compaixão?
Para Charles Figley, 1982 a fadiga da compaixão tem
sido descrita como o “custo de cuidar” de outras pessoas em dor emocional.
Estudos comprovam que profissionais que lidam diretamente com
pessoas que passam por profundo sofrimento físico, mental ou emocional, traumas
e desafios como extrema pobreza, vítimas de abusos; acolhem um alto nível de
fadiga da compaixão. Escolher uma profissão que vai cuidar do outro em
sofrimento proporcionando mudanças positivas em suas vidas é apaixonante, mas
pode em algum momento se tornar ilusória, muitas vezes se torna impossível mudar
positivamente a vida dessas pessoas, afetando os cuidadores em tempo integral e
até mesmo aqueles que se oferecem como voluntários. A fadiga da compaixão
também é conhecida como sobrecarga da empatia, estresse secundário ou trauma
vicário.
Pessoas que desde cedo decidem por uma profissão de cuidar do
outro (médicos, enfermeiros, paramédicos, trabalhadores do setor de emergência,
trabalhadores dos serviços de proteção à criança, intensivistas, assistentes
sociais, bombeiros, policiais, cuidadores integrativos/paliativos entre outros)
com compaixão e bondade amorosa muitas vezes desconhecem o que realmente
significa acompanhar o intenso sofrimento diariamente e colocam as necessidades
alheias na frente de suas próprias necessidades, deixando ausentes o autocuidado
autêntico.
Porque cuidar do outro exige que o profissional esteja com seu
coração e mente abertos e receptivos ao sofrimento alheio e, por mais compassivo
e empático que seja ele passa pela vulnerabilidade de ser afetado
profundamente, e este impacto pode afetar tanto a qualidade do trabalho como a
vida pessoal.
A fadiga da compaixão também conhecida como estresse
secundário tem tratamento se reconhecida e cuidada desde cedo. É muito
importante ter consciência do processo pelo qual se está passando. É comum o
cuidador ficar revivendo os traumas e as situações dolorosas que vivencia e que
podem se tornar obstáculos para uma profissão realizada e também para um estilo
de vida saudável e feliz.
O profissional precisa reconhecer as causas e os sintomas que
levaram à fadiga da compaixão, muitos sintomas são perturbadores e depressivos e
incluem:
·
Colocar
a culpa no outro de forma excessiva ou sentir-se culpado por não aliviar o
sofrimento alheio;
·
Guardar
as emoções e sentimentos;
·
Isolamento
ou solidão;
·
Não
saber lidar com reclamações de outras pessoas;
·
Dificuldade
de lidar com as pressões das funções administrativas;
·
Fazer
uso de substâncias para mascarar sentimentos ou esgotamento físico;
·
Desenvolver
comportamentos e hábitos nocivos como gastos excessivos ou vícios;
·
Evitar
o autocuidado (até mesmo na aparência ou higiene);
·
Insônia;
·
Mudanças
de humor;
·
Dificuldades
de se desligar do trabalho,
·
Mudanças
de sentimentos em relação aos clientes/pacientes,
·
Sono
perturbador com pesadelos e flashbacks de eventos traumáticos;
·
Desenvolver
doenças físicas crônicas que vão desde dores crônicas sem causa aparente,
problemas gastrointestinais e gripes recorrentes entre outros;
·
Apatia,
tristeza, falta de concentração, impaciência e intolerância;
·
Cansaço
mental e físico;
·
Pensamentos
suicidas, depressão/ansiedade ou outros transtornos emocionais;
·
Excesso
de preocupação e desânimo;
·
Desesperança,
cinismo, exaustão e irritabilidade
·
Negação
das dificuldades e violação dos limites.
Obviamente que as circunstâncias de vida, a história pessoal
do cuidador, sua maneira de enfrentamento das dificuldades, tipo de
personalidade podem impactar de formas diferentes a fadiga da compaixão e devem
ser consideradas no processo do set terapêutico, pois o cuidador não está imune
à dor de suas próprias vidas.
Como consequência quando o cuidador atinge o nível máximo de
fadiga da compaixão o próprio ambiente de trabalho é afetado assim como a
organização tanto em termos financeiros como os demais trabalhadores do local
também o são. Assim não é somente o profissional que precisa de cuidados, mas
também o ambiente de trabalho e demais funcionários. O desgaste na organização
pode ser sentido das seguintes formas:
·
Alto
absenteísmo;
·
Mudanças
constantes na qualidade de relacionamento entre os membros das equipes;
·
Incapacidade
de melhora na qualidade do atendimento oferecido;
·
Desvalorização
das regras da empresa;
·
Aumento
no índice de agressividade entre os funcionários;
·
Baixo
nível de bem-estar e felicidade no trabalho;
·
Dificuldades
em concluir atividades e projetos ou, cumprir prazos;
·
Falta
de flexibilidade entre os funcionários;
·
Negativismo
em relação à gestão administrativa;
·
Baixa
interesse na busca de transformação;
·
Falta
de credibilidade dos funcionários em relação às mudanças;
·
Falta
de visão de futuro.
Por isso cabe também à empresa oferecer ambientes de trabalho
onde se leva em conta o cuidar do cuidador, promovendo condições de trabalho
que vão além dos requisitos legais. Ser uma empresa/organização saudável
significa entre outras coisas:
· Oferecer treinamentos, cursos,
palestras instrutivas e motivadoras,
· Valorizar o profissional com flexibilidade
e suporte, avaliações regulares da carga de trabalho, conhecer e reduzir a
exposição a traumas;
· Ter lideres servidores e conscientes
que incentivam a equipe e fornecem supervisão oportuna e de boa qualidade, para
que o bem-estar e a felicidade sejam levados sempre em consideração;
· Permitir que os funcionários tenham
controle sobre a sua programação de atividades para que possam ter maior
satisfação no trabalho, principalmente quando o cuidador está diretamente
ligado a sofrimentos traumáticos;
· Oferecer um forte apoio social, tendo
todo o cuidado para que o funcionário não se sinta responsabilizado pelo seu
esgotamento emocional.
· Ter especialistas em Fadiga da
compaixão que desenvolvam um plano de ação e que possa oferecer ajuda
terapêutica, treinamentos, escuta atenta e outras oportunidades para o cuidador
lidar com os sintomas.
É muito importante reconhecer os sintomas da fadiga da
compaixão, e ao tomar consciência dos sintomas deve-se enfrentar os traumas,
eventos negativos, as emoções destrutivas, os sentimentos de impotência e os
comportamentos nocivos.
É importante reconhecer que existe um caminho para
conciliar as atividades profissionais com o próprio bem-estar e felicidade. Começando
por não ignorar a saúde emocional e mental. A cura é possível se incluir além
do tratamento terapêutico que permite a compreensão da complexidade das emoções
que muitas vezes estão sendo suprimidas até a inclusão de pequenas praticas diárias
na vida cotidiana tais como:
·
Exercícios
físicos, Yoga, massagens e práticas de meditação
·
Participar
de treinamentos da mente como os programas de Mindfulness ou de autocompaixão;
·
Hábitos
saudáveis de alimentação além de beber muita agua;
·
Participar
de retiros, passeios ao ar livre e curas naturais como banhos de imersão;
·
Aprender
a dizer “Não”;
·
Participar
de grupos de apoio, de autoestima, de estudos ou mesmo de espiritualidade;
·
Ter
uma vida mais planejada e organizada
·
Aprender
a responder em vez de reagir;
·
Fazer
terapia e aprender a fazer suas escolhas, conhecer e expressas seus
sentimentos;
·
Sono
tranquilo e reparador,
·
Conversa
terapêutica;
·
Aprender
a delegar responsabilidades;
·
Pedir
ajuda;
·
Atividades
sociais;
·
Práticas
de meditação ou contemplação,
·
Ter
um hobby, dançar, cantar, fazer diferentes formas de expressão artística.
·
Ter
uma vida mais equilibrada.
Não é um processo magico, envolve tempo, compromisso e
perseverança para que a qualidade de vida e bem-estar possam serem sentidas sem
precisar abandonar a carreira a qual se propôs.
Quando falamos da importância do autocuidado estamos nos
referindo a:
·
Ser
auto compassivo – reconhecendo seu próprio sofrimento e sendo gentil consigo
mesmo;
·
Buscar
mais informações sobre a fadiga da compaixão;
·
Expandir
sua consciência sobre seus próprios limites e conhecimentos;
·
Compreender
que as outras pessoas estão vivendo suas próprias experiências;
·
Desenvolver
a escuta atenta compassiva e empática com as pessoas que estão sofrendo;
·
Compreender
o que funciona e o que não funciona para você;
·
Aprender
a se comunicar claramente, enfatizando suas próprias necessidades e
sentimentos;
·
Buscar
atitudes positivas para mudar o ambiente.
O autocuidado deve ser verdadeiro, perseverante no esforço
correto e na dedicação, compreendendo que não se está sozinho, e existem
especialistas que têm recursos técnicos, ferramentas de treinamento e
orientação emocional e mental.
O processo de cura começa quando o cuidador faz um profundo
trabalho interior, deixando de lado a culpa, a vergonha e a vulnerabilidade
para poder estabelecer com clareza mental e discernimento os seus limites
pessoais e profissionais, compreendendo a verdadeira natureza de seu próprio sofrimento,
os comportamentos negativos que surgiram, denominar as emoções e sentimentos e
as necessidades decorrentes. É um trabalho interno de autoconhecimento que cura
e liberta, promove transformação no mundo interior e na forma como lidamos com
as dificuldades do mundo exterior, os benefícios começam a ser colhidos com o
tempo, o bem-estar e a qualidade de vida podem ser percebidos.
Sonia A F Santos
Ser Atento Mindfulness Brasil
Palestrante, Terapeuta e Instrutora de Mindfulness e
Compaixão
Terapeuta com Foco em Compaixão
Mestranda em Mindfulness e Compaixão para cuidar do cuidador
em Oncologia
Contato:
e-mail: seratento.2016@gmail.com
whatsapp: 11 99463 5825



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